terça-feira, 19 de maio de 2026

"Se o vazio é possível, tudo é possível" - Nagarjuna

"Se o vazio é possível, tudo é possível" - Nagarjuna 

    Kedrub Palzangpo (c. 1385– c. 1438), o I Panchen Lama e discípulo e sucessor de Je Tsongkhapa (Escola Gelugpa),  em seu tratado sobre a filosofia Madhyamika, intitulado Uma Dose de Vazio (sTong thun chen mo), desfaz equívocos interpretativos sobre a filosofia da escola Madhyamika, nascida na Índia a partir de Nagarjuna (séc. II d.c.) e seus discípulos, como Aryadeva e Nagabodhi.  Kedrub cita o Prasannapada,  um comentário de Chandrakirti (séc. VII) ao Mulamadhyamakakarika, de Nagarjuna, a fim de refutar interpretações errôneas que levam a uma visão niilista acerca do vazio. Vazio não é  um grande nada, não é vácuo, não é ausência total de existência. 

 
Nagarjuna (séc. II)

    Na perspectiva da Madhyamika indônea e da escola Gelugpa original, o vazio é a interdependência ou surgimento dependente, em que nada no mundo manifesto surge sozinho, a partir de si próprio, ou de uma essência individual, nem surge a partir de um outro completamente separado. Tudo surge na dependência de causas e condições. Tudo é interdependente. Por isso, posteriormente, a partir de Chandrakirti, passa-se a se falar em vazio de existência inerente e não somente vazio, a fim de evitar má interpretações (muito embora tais interpretações inadequadas ainda se façam presentes, infelizmente). Abaixo o trecho do comentário de Chandrakriti: 

    "Onde quer que seja possível o fato de que “todos os fenômenos são vazios de existência inerente”, aí deve ser dito que tudo se torna possível. Como assim? Porque chamamos o surgimento dependente de “vazio (shunya)”. Portanto, onde quer que o vazio seja possível, o surgimento dependente é possível; e onde quer que o surgimento dependente seja possível, segue-se logicamente que as quatro nobres verdades também devem ser possíveis. Como assim? Porque é o próprio surgimento dependente que produz o sofrimento; sem surgimento dependente, o sofrimento não poderia surgir. Porque o sofrimento é destituído de essência, é considerado vazio. Se o sofrimento existe, então as causas do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz à cessação do sofrimento são possíveis. 

    Portanto, a compreensão do sofrimento, o abandono da causa, a realização da cessação e a meditação no caminho também se tornam possíveis; e, se a compreensão da verdadeira natureza do sofrimento existe, então seus respectivos frutos tornam-se possíveis. Se os frutos existem, então aqueles que se sustentam nos frutos são possíveis; e, se aqueles que se sustentam nos frutos existem, então aqueles que entram no caminho que leva para os frutos tornam-se possíveis. Onde existem aqueles que entram e se sustentam nos frutos, aí também a Sangha é possível. Se as nobres verdades existem, então o sagrado Dharma também se torna possível. Quando o sagrado Dharma e a sagrada Sangha existem, o Buddha também é possível. Todos os entendimentos distintos de todos os fenômenos, tanto mundanos quanto supramundanos, também são possíveis. Dharma, karma e seus frutos, assim como toda terminologia mundana, tornam-se possíveis. Se o vazio não fosse possível, visto que o surgimento dependente não seria possível, nada seria possível." - Chandrakirti. Prasannada. 


Khedrub Palzangpo, I Panchen Lama (Escola Gelugpa)


Nenhum comentário:

Postar um comentário