Abre mão da tua vida, se queres viver .
- A Voz do Silêncio. H.P.B. Ed. Teosófica.
O Nobre Caminho Óctuplo
Lalitavistara Sutra
A reta compreensão é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois impede que alguém transgrida os compromissos.
O reto pensamento é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva alguém a renunciar a todos os pensamentos, conceitos e ideias errôneas.
A reta fala é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva alguém a perceber que todas as palavras, sons, a língua e a fala são como ecos.
A reta ação é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva à libertação do condicionamento ao karma e à ausência do amadurecimento das ações condicionadas.
O reto meio de vida é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva alguém a cessar todas as buscas equivocadas.
O reto esforço é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva alguém a alcançar a outra margem.
A reta memória é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva à ausência de desatenção e à superação do engajamento mental com as coisas mundanas.
O reto samadhi é uma porta de entrada para a luz do Dharma, pois leva ao samadhi, uma mente livre de perturbações.
Nagarjuna (c.150-250), um dos filósofos mais influentes do budismo mahayana, enfatizou um ensinamento central, conhecido como “śūnyatā”, ou vazio (shunya). Esse ensinamento, presente nos Sutras da Perfeição da Sabedoria, é uma das marcas distintivas do budismo mahayana e de um de seus pilares: a Escola Madhyamika de Nagarjuna, Aryadeva, Nagabodhi e outros.
Segundo Nagarjuna, o vazio não significa inexistência ou nada absoluto, mas sim a ausência de existência inerente ou substancial em todos os fenômenos. Em outras palavras, as coisas não possuem uma essência fixa, independente e permanente. Em vez disso, elas existem de maneira dependente, interrelacionada e contingente.Abhidharma - Classe de tratados sobre a cognição, o funcionamento da mente e a apreensão dos fenômenos.
Adibuddha - Buddha Primordial. Buddha cósmico. Oniabarcante e onipermeante.
Advaita - Não-dual. Ausência de dualidade.
Ahimsa - Não-violência. Inofensividade.
Akasha - Espaço. O elemento espaço (elemento sutil, o quinto elemento).
Ajnana - Ausência de sabedoria (jnana). Ausência de gnosis.
Alaya - Base universal. Morada.
Alaya-Vijnana - continuum mental, fluxo mental, consciência apropriadora. Citta. A mente que renasce vida após vida.
Ananda - Bem-Aventurança.
Anatman (Anatta, em páli) - Não-Ser. Não-Atman. Uma das marcas do samsara.
Anitya - Impermanência. Transitoriedade. Outra marca do samsara.
Arhat - Aquele que se tornou digno, que se libertou do samsara. Termo originário do jainismo.
Arya - Nobre. Precioso. Alguém que alcançou um estado elevado na senda dos Bodhisattvas. Um Arya Bodhisattva.
Atman - Ser. Ser universal. Espírito Universal. O Si Mesmo.
Avarana - Encobrimento. Véu. Obstrução.
Avidya - Ignorância fundamental. A ignorância que atribui existência inerente ao eu e aos fenômenos. A causa do sofrimento. O Klesha (a perturbação) raiz. Ausência de sabedoria (vidya).
Avici (Avitchi) - Um dos reinos infernais.
Ayatana - As bases dos sentidos. Os órgãos dos sentidos e os objetos dos sentidos.
Bala - Poder. É a nona paramita ou perfeição.
Bardo - Estado intermediário entre a morte e o próximo nascimento. Termo tibetano. Antarabhava, em sânscrito.
Bhagavan - O Abençoado. O Senhor. Um epíteto de Buddha.
Bhava - Um dos elos da existência condicionada, o vir-a-ser.
Bhavana - Cultivo da meditação. Cultivo da contemplação. Prática da meditação.
Bodhi - Despertar. A luz da intuição superior. A luz do despertar.
Bodhicitta - A mente do despertar, a mente (citta) voltada para bodhi (a intuição mais elevada), mente altruísta. Um estado de consciência altruísta. Altruismo.
Bodhisattva - "Um filho ou filha de Buddha", uma pessoa guiada por bodhicitta, que adentrou a senda Mahayana.
Bhumi - Solo, os solos ou níveis da senda dos Bodhisattvas. São dez bhumis até o Nirvana de um Buddha.
Buddha - O Plenamente Desperto, o completamente iluminado. O todo-conhecedor. O onisciente. O estado mais elevado da senda. Aquele que alcançou o Nirvana.
Buddhi - Intuição sutil. Intuição elevada.
Cetana - Direcionalidade da mente. Volição. Tom vibratório da mente. Um dos fatores mentais.
Citta - Mente. Fluxo mental, continuum mental. A mente que renasce vida após vida. Psiquê. Sems, em tibetano.
Cittamatra - "Somente a mente", "tudo é mente". O mecanismo de projeção da mente após o contato com um objeto. Também é uma perspectiva equivocada que considera toda a realidade uma mera projeção mental.
Dana - Generosidade. A primeira das paramitas (perfeições).
Deidade (yidam, em tibetano) - Atributos da mente de um Buddha, ou da Natureza-Buddha latente. Por exemplo: Avalokiteshvara - A compaixão. Manjushri - A Sabedoria. Vajrapani - O Poder.
Devas - Deuses. Anjos.
Dharma - Lei. Sustentação. Ensinamento. Senda.
dharmas - Fenômenos, "coisas" (as formas indentificáveis pela mente e os cinco sentidos - sejam sons, imagens, formas táteis etc).
Bruno Carlucci
Pensando em questões de tradução de textos budistas, é curioso como a palavra "reencarnação" nos meios budistas brasileiros gera tanta polêmica, eu mesmo só utilizo e prefiro a palavra "renascimento". Mas esses dias vi um texto (feito por brasileiros) criticando os ocidentais que dizem haver "reencarnação" no budismo tibetano. Se olharmos as traduções de lígua inglesa, o próprio Dalai Lama atual usa ambas as palavras "reincarnation" e "rebirth" sem problemas em suas conversas e entrevistas. A noção de "Tulku", isto é, do reconhecimento de um "Lama" renascido (ou reencarnado) numa nova vida é um dos alicerces do budismo tibetano.
No caso da escolha dos Dalai Lamas, isso é até chamado de "politics of reincarnation". Basta uma pesquisa simples, as ocorrências da palavra "reincarnation" nesse contexto dos "tulkus" são muito maiores do que da palavra "rebirth". Glenn Mullin, tradutor do Dalai Lama e biógrafo dos Dalai Lamas anteriores, usa a palavra "reincarnation" sem problema em suas obras.
Num livro sobre a história da antiga escola Kadampa, editado por Thubten Jinpa, outro tradutor do Dalai Lama, também há o emprego abundante da palavra "reincarnation". O estudioso renomado e tradutor de tibetano, Alexander Berzin, adota "reincarnation" e "rebirth" como sinônimos. Mesmo no Brasil, há Lamas que adotam a palavra "reencarnação". O Lama Michel Rinpoche usa a palavra "reencarnação", ao invés de "renascimento". O Monge Thubten do canal Amigo Monge (escola Gelugpa) também usa a palavra "reencarnação" sem problemas em seus vídeos.
O Centro budista Gelugpa Shiwa Lha, vinculado à Fundação de Preservação da Tradição Mahayana, também usa a palavra "reencarnação". Não há uma palavra em sânscrito que corresponda exatamente a renascimento, reencarnação, metempsicose, ou transmigração.
A palavra samsara se refere a um perambular, a um ciclo repetitivo de nascimento, envelhecimento, adoecimento, morte. Tentar proscrever traduções possíveis dessa ideia acaba servindo como uma boa fonte de confusão, já que em termos bem superficiais e mais gerais, a noção de que todo mundo viveu antes e vai viver de novo, de alguma forma, é algo comum entre as diferentes tradições religiosas chamadas de "reencarnacionistas" e pode servir de ponte de diálogo entre elas.
O que muda em cada uma dessas religiões é a forma como o processo se dá (e isso pode diferir bastante): se é uma "evolução" linear ou se é um processo cíclico, se é voluntário ou compulsório, se é desejável seguir com o acúmulo de experiências ou se é melhor buscar se libertar do ciclo e ganhar autonomia sobre o processo, se é possível ou não nascer como um humano numa vida e como outra espécie de animal ou outro tipo de ser, se é possível acessar as memórias ou não, o quanto nossas ações (karma) moldam o processo, se o que nasce continuamente é um espírito, uma alma, um "eu" ou personalidade fixa, ou se é um fluxo mental ou mente sutil, e como se dá o processo intermediário entre um nascimento e outro etc. Mas palavra reencarnação em si não está fehada para uma única explicação do processo. Não tem um significado inerente e, portanto, pode ser usada pelo budismo, mesmo não havendo o conceito de um espírito que renasce, mas, sim, de um fluxo mental. A ideia de que passamos por várias vidas e de que o nosso karma, as nossas ações, a nossa responsabilidade, nos direciona para determinadas circunstâncias e ter de enfrentar determinadas consequência é o ponto importante a ser apreendido, seja chamando tal processo de reencarnação ou de renascimento. Assim como a possibilidade de poder se libertar da compulsoriedade deste processo é outro ponto essencial para o budismo, tal é a libertação do samsara.
*Texto originalmente publicado por Bruno Carlucci no Facebook em fevereiro de 2022.
A meditação apresentada no contexto budista Mahayana indo-tibetano em tratados como o Bhanavakrama (Os Estágios da Meditação), de Kamalashila e no Lamrim ChenMo, de Je Tsongkhapa (da escola gelugpa no Tibete) não é exatamente "estar presente" apenas como ficou comumente entendido pelo senso comum no Ocidente. Je Tsongkhapa define meditação como familiarização.
Não é apenas uma técnica passiva para observar os estados mentais ou as ações cotidianas, mas um método de transformação da mente, de modo que é necessário um objeto "virtuoso" de meditação, isto é, um objeto vinculado ao estudo e reflexão do Dharma budista, de modo que a mente consiga se estabilizar nesse estado mental virtuoso e ter a flexibilidade necessária para o segundo passo que é a meditação analítica. O que também vai contra a ideia do senso comum de que meditação é parar de pensar ou apenas observar o fluxo do pensamento sem julgar.
Na meditação analítica, o pensamento é ativamente usado para se aprofundar na compreensão desse objeto de meditação. Com a mente devidamente estabilizada, essa análise pode promover uma compreensão mais profunda, um insight, uma "intuição". Então, bem resumidamente, meditar nesse contexto consiste em meditar sobre algo, é uma prática acompanhada de estudo e reflexão. A meditação é uma técnica para ajudar a alcançar a sabedoria (prajna) que compreende o vazio de existência inerente do "eu" e dos fenômenos, é um método para levar à compreensão da natureza última da realidade.
Primeiro doma-se o elefante da mente por meio da serenidade mental (shamatha) e, então, o praticante monta no elefante empunhando a espada flamejante da sabedoria que corta os fios das visões distorcidas da realidade por meio da meditação analítica (vipasyana). Budistas não ficam meditando toda hora, se a mente estiver muito perturbada pode nem ser bom forçar uma prática meditativa naquele momento, e meditação não é panaceia. Não adianta meditar meia hora por dia sobre a virtude da paciência e ter uma conduta de vida não condizente com o cultivo dessa virtude.
Sentir-se focado e atento ao cortar a grama, cozinhar, dançar etc não configura meditação nesse contexto. Outras escolas budistas e hinduístas podem ter diferentes acepções e abordagens acerca do que é meditação e diferentes palavras em sânscrito podem ser traduzidas como meditação ou contemplação ou relacionadas a tal prática (bhavana, dhyana, dharana, samadhi), cada uma com suas nuances e significados de acordo com cada escola interpretativa.
Este foi um resumo breve e imperfeito sobre o que é dito por dois autores importantes para a Escola Gelugpa do budismo tibetano. Quem quiser se aprofundar, fica a dica de leitura desses e outros autores (Kamalashila, Shantideva, Atisha, Je Tsongkhapa, Geshe Rabten, Geshe Dargyey, Pabongkha Rinpoche, só para citar alguns, há muitos outros). Na foto: Je Tsongkhapa (1357—1419), o reformador do Dharma no Tibete.
O que é chamado de "gnosticismo" é uma tradição vinculada a Jesus e seu círculo interno de discípulos, os ophitas, com influências de ensinamentos dos essênios e da tradição dos profetas em sua vertente mais esotérica, incluindo a kabbhalah dos nazarenos, a gnosis judaica e pré-cristã dos sethianos. Essa tradição refinada pelos ensinamentos de Jesus, o Vivo, flui por diferentes escolas posteriores, como os valentianos, marcionitas, mandeanos, maniqueus. Dentre expoentes daqueles que atuaram junto a Jesus, destacam-se João Lázaro, João Batista, Maria Madalena, Tomé, o Gêmeo. A literatura apócrifa, incluindo os textos descobertas em Nag Hammadi e os Manuscritos do Mar Morto, requer um estudo cuidadoso, com discernimento nessa busca pelo que seria o outro "cristianismo", caso a Igreja medieval não tivesse perseguido as antigas escolas gnósticas. Personagens como Filon Judeu, Bardenases, Mani, Paulo e outros também se destacam como verdadeiros representantes dessa linhagem gnóstica.
Sobre o novo escândalo envolvendo o atual e XIV Dalai Lama, a sua suposta tentativa de dar um beijo de língua numa criança, concordo com o Amigo Monge (alguém que convive com tibetanos há décadas, fala a língua e tem muita familiaridade com a cultura): Não há justificativa cultural.
O Tibete era uma espécie de teocracia feudal até metade do Séc. XX, antes de ser anexado pela China. Então, sim, o Dalai Lama é uma autoridade religiosa também, claro, mas não uma autoridade suprema ou algo como um Papa, pois o budismo tibetano não é uma igreja católica, com um clero unificado. Conforme já explicado, há diferentes escolas e diferenças de visões filosóficas e nas práticas etc.
Em português, muitos livros bons foram publicados nos anos 90 e início dos anos 2000, em que o Dalai Lala comentava textos clássicos do budismo como o Sutra do Coração, o lamrim de Atisha, textos do III Dalai Lama, textos sobre meditação, de Kamalashila, etc. A figura popular do Dalai Lama fez com que, indiretamente, textos clássicos do budismo mahayana chegassem ao mercado de língua portuguesa, tão carente de traduções. Mas também há livros de auto-ajuda em que a marca "Dalai Lama" se sobrepõe ao budismo. Num país em que o budismo sempre teve uma presença muito pequena, a figura do Dalai Lama ajudou a popularizar os ensinamentos budistas e o interesse por meditação no público brasileiro, muito do budismo tibetano que aqui chegou é de vertentes ligadas a ele e criticá-lo, ainda que minimamente, sempre foi visto como um ato de heresia nos meios budistas brasileiros, resultando em censura e banimento de grupos virtuais.
Devido à história complicada da questão China-Tibete, muitas pessoas trazem teorias da conspiração infundadas e coisas do tipo quando surge algum escândalo ou notícia ruim sobre ele ou líderes budistas famosos no Ocidente.
O budismo tibetano está cheio de ensinamentos belos e profundos, há toda uma herança filosófico-religiosa trazida da Índia e refinada por grandes lamas budistas como Je Tsongkhapa, Atisha, Serlingpa, Sakya Pandita, Gedun Drub, Lobsang Chökyi Gyaltsel, Chekawa, Thogsmed Zangpo. Sonam Tsemmo, Buston Rinchen, Dölpopa Sherab Gyaltsen, Jetsun Taranatha e muitos outros; menciono aqui só alguns expoentes das linhagens das escolas Gelugpa, Sakya, Jonang-Zhalu, pois a lista seria imensa. E se uma pessoa interessada em budismo buscar textos desses personagens, estudá-los, verá que são como joias preciosas. Abaixo, uma imagem de Je Tsongkhapa, fundador da escola Gelugpa e um grande filósofo budista e reformador do Dharma no Tibete:
Mas, infelizmente, o budismo tibetano também conta com abusadores famosos que usam argumentos furados como "louca sabedoria" para ter escrava sexual e chamar de "consorte tantrica", como Sogyal Rinpoche, monges que se comportavam como golpistas e eram violentos com seus discípulos, os quais eram convencidos de que sofrer abusos nas mãos de um lama seria uma benção para purificar o karma (sic), como Chongyan Trungpa.
Há lamas que instigam o fanatismo e a idolatria, o culto à personalidade e adoram quando ocidentais os chamam de "Budas vivos" enquanto falam groselha para o público e garantem a sua doação. E quando algum escândalo vem à tona, usam o relativismo cultural como desculpa. O budismo tem histórico de escolas e gurus que se odeiam, que se pudessem destruiriam seus inimigos com um toque de mágica, corrupção, lavagem de dinheiro etc. As mulheres até hoje têm menos visibilidade e um status inferior, embora aos poucos e muito lentamente tenha havido mudanças, mas mudanças muito lentas e tímidas para os padrões do séc. XXI.
Como TODA religião instucionalizada, o budismo tibetano, as suas escolas estão permeadas por problemas sociais, relações de poder, politicagem etc. Achar que o budismo é uma exceção ou que tibetanos são um povo mais ingênuo e inocente que os outros é cair em mitos orientalistas antiquados e é uma forma infantilizada de buscar o budismo que só levará o buscador à decepção ou a um fanatismo nada saudável.
O ato do Dalai Lama é lamentável, e dificilmente haverá uma investigação adequada. Será que ele está dando sinais de senilidade dada a idade avançada ou seria o ego inflado de alguém que está acostumado a ser tratado como rei, a "reencarnação de Buddha" (como até hoje muita gente desinformada o chama no Ocidente)? Um ego inflado que "brinca" com os outros a despeito do trauma que isso possa causar nesses outros, principalmente quando a suposta brincadeira de mau gosto é feita com uma criança? Quão saudável é tratar pessoas como deuses encarnados? Será que é uma atitude budista adequada cultuar os outros? É lamentável a forma como as desculpas foram dadas por meio de seus representantes, com um textinho curto, em terceira pessoa, num tom corporativo ao estilo "desculpe o transtorno", que poderia ter sido escrito pelo chat GPT. Por que ele não pode falar diretamente ao público e esclarecer isso?
Também é lamentável que muitos budistas tentem defender ou eximir o Dalai Lama com teorias da conspiração, diagnóstico hipotético de Alzheimer (sim, ele pode estar senil, mas isso é apenas uma conjectura), ou com relativismo cultural (talvez a pior das desculpas).
Ao mesmo tempo, simpatizantes e pessoas que desconhecem os meandros, os conflitos e problemas do budismo tibetano e suas politicagens e história complexa, estão decepcionados, pois talvez projetassem no Dalai Lama uma última esperança de pureza espiritual e estabilidade mental num mundo cada vez mais carente de bons exemplos, principalmente no campo da espiritualidade. É sempre doloroso quando nos decepcionamos com alguém porque fomos induzidos pela mídia a projetar expectativas altas demais.
Não cair em idolatria e não cultuar personalidades são atitudes essenciais no caminho. Também é fundamental que haja discernimento, estudo, reflexão, meditação. Até porque o budismo não propõe a salvação por meio de terceiros. A iluminação vem pelo esforço próprio, a partir do que se aprendeu. O guru aponta, mas o caminho é nosso e temos de escolher bem qual caminho seguir e com quem queremos caminhar; não se deve aceitar algo sem reflexão e sem discernimento só porque vem de alguém numa posição de autoridade.
Que tenhamos discernimento e não tenhamos medo de apontar condutas inadequadas e danosas para os outros. Que também seja uma oportunidade para a sangha budista refletir sobre a forma com que lida com escândalos desse tipo. Que possamos refletir sobre a nossa própria conduta de corpo, fala e mente.
Que o foco seja no ensinamento, no Dharma. E se houver contradições nos ensinamentos dados, nos grupos, se percebermos mentalidade de seita, que tenhamos a coragem de reconhecer isso e mudar de rota, com confiança de que o caminho, embora longo e árduo, vale a pena! Que haja discernimento, compaixão e coragem!
No Ornamento do Vazio de Outro da Grande Madhyamaka (gZhan stong dbu ma'i rgyan), Taranatha diz:
"Nos ensinamentos Abhidharma, temos o seguinte:
Qual é a virtude última? Ensina-se que é a própria Realidade Última. Portanto, a sabedoria primordial (jnana) de Alaya, é ensinada, pois esta é a própria Realidade Última, a pura jnana. Por ser chamada de virtuosa, não se trata da consciência dual (alaya-vijnana). Mas é Alaya (a Base Universal) ou o Sugatagarbha (a Semente da Bem-Aventurança), a Natureza-Buddha. Visto que a Realidade Última é ensinada como a causa do Despertar (isto é, a Iluminação) e como a própria Realidade da única realidade, não se trata de um fenômeno não existente. Tampouco se trata da realidade aparente (ou relativa)."
*Jetsun Taranatha viveu entre a segunda metade do século XVI e primeira metade do século XVII no Tibete e na Mongólia. Foi o último abade da Escola Jonang original, ligado à linhagem Jonang-Zhalu.
* Tradução de Bruno Carlucci.
| Vajradhara - uma emanação de Adi-Buddha, o Buddha Primordial |
O Vazio é Cheio
Bruno Carlucci
A perspectiva do vazio (śūnyatā) não é um vácuo, mas é interdependência.,
O vazio (śūnya) não é uma vacuidade, mas uma ausência de separatividade.
O vazio não é negação da realidade relativa, daquilo que é superficialmente ou aparentemente separado, mas a compreensão de que essa separatividade não é essencial, não é a natureza-própria (svabhāva) das coisas.
O vazio é cheio.
"A interdependência ou o surgimento-dependente significa falta de separatividade. O vazio significa falta de separatividade. Vazio não significa que nada exista." - Candrakirti (Comentário ao Caminho do Meio/Madhyamakavatara).
Assim ensina a Madhyamaka.
Chandrakirti (séc. VII, Índia)Assim acrescenta a Grande Madhyamaka, Yogācāra-Madhyamaka:
O Vazio último é vazio de outro, porque todos os fenômenos são vazios de si.
Todos os fenômenos são interdependentes porque a Natureza Última é vazia de outro.
É o elemento quitessencial, o Dharmadhātu.
É O Espaço primordial em que surgem os fenômenos.
É O Círculo do Tempo Incondicionado.
Vazio Incondicionado. Plenitude Absoluta.
O Grande Vazio (Shentong) é Cheio porque não há outro senão Ele.
É a Plenitude Suprema.
É Natureza-Buddha.
É a Base Universal prístina (Ālaya).
É a Natureza Última, o Númeno (Dharmatā).
É Bodhicitta.
É ĀdiBuddha.
"Portanto, a Realidade Última de todos os sūtras e tantras profundos, que cuidadosamente apresentam Tathatā e daí por diante, é o Vazio de Outro, nunca o vazio de natureza própria." (Dölpopa Sherab Gyaltsen, O Quarto Concílio).